Transição energética: uma escolha que protege o bolso e o futuro do Brasil

Em ano eleitoral, a pauta energética pode definir se o país continua refém do petróleo ou assume o protocolo de mudança

A maioria dos brasileiros já sentiu que seu bolso é afetado pelo que acontece do outro lado do mundo. Um conflito no Oriente Médio, uma decisão da Opep e, semanas depois, o diesel sobe, o frete encarece e o preço do arroz, do tomate e do frango muda sem que ninguém aqui tenha decidido nada.

A lógica do mercado globalizado de commodities está se provando um risco à segurança energética e alimentar dos países. Um risco que o Brasil não precisa correr.

Ao contrário da grande maioria dos países, o Brasil não parte de uma dependência tão profunda dos combustíveis fósseis para sustentar sua matriz energética. O país tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do planeta: 88,2% da eletricidade gerada vem de fontes renováveis.

Quando se considera toda a oferta de energia, incluindo combustíveis para transporte, uso industrial e outras fontes além da eletricidade, as renováveis respondem por cerca de 50% da matriz energética brasileira.

Poucas economias de grande porte apresentam uma participação tão elevada de fontes limpas.

Isso nos coloca em uma posição privilegiada para acelerar a transição energética e reduzir nossa dependência dos combustíveis fósseis.

Falar da transição energética é abordar a questão dos transportes, que atualmente é uma vulnerabilidade do Brasil, por ainda ser fortemente dependente do diesel. O abastecimento de petróleo e derivados segue condicionado a um mercado internacional volátil, e não é de agora.

Já vivemos o choque do petróleo da década de 1970, que gerou o Proálcool, ponto de partida para a alta participação de biocombustíveis na nossa matriz.

O quadro hoje é semelhante, mas as respostas ainda se concentram em conter danos imediatos. Para evitar que os choques externos cheguem ao consumidor, quando o barril dispara lá fora por um bloqueio naval ou uma sanção geopolítica, recorre-se a mecanismos de contenção, subsídios, alívios tributários e intervenções em preços.

Embora aliviem a pressão no curto prazo, essas medidas consomem recursos públicos expressivos sem resolver a causa do problema, perpetuando uma vulnerabilidade fiscal e energética que o país já tem condições de superar.

Para gestores públicos e parlamentares que avaliam o ritmo dessa agenda, um dado deveria pesar na equação: a transição energética deixou de ser pauta de nicho e passou a ser consenso amplo e maduro para o desenvolvimento da sociedade brasileira.

Pesquisa da GGON (Global Gas and Oil Network) mostra que 72% dos brasileiros defendem que o desenvolvimento econômico do país seria mais bem servido pela diversificação das atividades para além do petróleo e gás, e 67% entendem que a própria Petrobras deve exercer papel de liderança ativa nesse processo.

O apoio às fontes limpas é igualmente expressivo: 89% são favoráveis a uma inserção prioritária ou equilibrada das renováveis, contra apenas 7% que defendem manter o foco em fósseis.

A esse apoio popular soma-se o argumento econômico: a Análise Socioeconômica de Custo-Benefício (ACB) do WWF-Brasil, baseada na metodologia do Governo Federal, aponta que insistir na exploração de petróleo na Foz do Amazonas pode gerar um prejuízo social de R$ 22,2 bilhões. Por outro lado, direcionar os investimentos para a energia renovável pode gerar um benefício líquido positivo de R$ 24,8 bilhões.

Isso revela um custo de oportunidade potencial de R$ 47 bilhões do qual o país abre mão, ignorando que a substituição progressiva por biocombustíveis e fontes limpas evita perdas econômicas bilionárias e blinda o país contra o risco de ativos encalhados.

A capacidade técnica e produtiva existe; o que falta é coerência entre discurso, planejamento e investimento. O Brasil assume metas climáticas ambiciosas e reconhece a necessidade de reduzir gradualmente o uso de combustíveis fósseis, mas ainda direciona parte importante de sua energia política e econômica para novas fronteiras de petróleo e gás, frequentemente apresentadas como promessa de arrecadação futura.

O problema é que royalties incertos não substituem uma estratégia de desenvolvimento: dependem de preços internacionais, prazos longos e riscos crescentes de mercado. A transição só ganhará escala se o país alinhar incentivos, regulação e infraestrutura — de redes e armazenamento a biocombustíveis, biometano e outras soluções de baixo carbono. Mais do que uma disputa tecnológica, trata-se de uma decisão política.

Não existe troca de matriz da noite para o dia e seria enganoso prometer que a conta de luz ou o diesel vão baixar no mês seguinte a qualquer anúncio. A transição não é obra de um mandato: exige planejamento, investimento em infraestrutura de transmissão, regulação estável para atrair capital privado e atenção a quem vive do diesel hoje, como trabalhadores do transporte e cadeias industriais que precisam de tempo e apoio para se adaptar.

Ignorar esse lado social é condenar a transição ao fracasso antes mesmo de começar.

Responsáveis por fazer essa agenda avançar não faltam: do governo ao Congresso, passando pelo setor privado. Cada um desses atores já tem os dados de que precisa para agir e uma sociedade que, por ampla maioria, já demonstrou apoiar essa direção. O que falta é decisão.

Enquanto o Brasil continuar dependendo do preço internacional do petróleo para mover caminhões, alimentos e mercadorias, cada crise geopolítica continuará chegando primeiro ao caixa do supermercado. A transição energética não elimina essa vulnerabilidade de um dia para o outro, mas é o único caminho capaz de reduzi-la de forma permanente.

2026 é ano de eleição e a energia deveria ganhar espaço no debate. Prometer combustível mais barato pode render votos, mas não resolve o problema real.

Reduzir essa dependência estrutural é a decisão necessária que protege o orçamento público de gastos emergenciais recorrentes, dá previsibilidade a setores inteiros da economia e, no fim das contas, decide que tipo de país o Brasil quer ser diante de décadas de instabilidade geopolítica que, com toda probabilidade, ainda estão por vir.

Fonte: Exame.

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