O mercado de BESS que o cadastro não consegue medir

O Brasil já tem interesse suficiente para formar uma indústria, mas ainda precisa transformar projetos registrados em conexão, contrato, capital e desempenho verificável.

A tese é simples: o Brasil não está diante de um mercado único de baterias, e sim de uma arquitetura de serviços elétricos em formação. O número de projetos interessados impressiona, mas o valor econômico aparecerá apenas quando potência, duração, localização, conexão e disponibilidade forem contratadas e entregues. Em 3 de agosto de 2026, a EPE registrou 6.091 projetos nos leilões de armazenamento, somando 296.807 MW. O próprio órgão advertiu que cadastro não equivale a habilitação, contratação ou potência instalada.

Essa ressalva muda o tom da conversa. O dado mede apetite empresarial e a expectativa de que BESS terá função relevante na matriz. Não mede quantos projetos sobreviverão à margem de rede, ao licenciamento, ao preço, ao financiamento, ao CFI e à capacidade de operar por 15 anos. Em um setor nascente, exagerar o pipeline é uma forma rápida de perder credibilidade. A pergunta útil é outra: quais problemas do sistema já têm valor mensurável e quais ainda dependem de uma regra futura?

Um estudo setorial preliminar de 2026 ajuda a colocar esse número em perspectiva. A análise defende que o armazenamento seja considerado de forma tecnologicamente neutra e conforme a necessidade do sistema. Duração, localização, escala, custo e desempenho importam mais que a defesa de uma tecnologia específica. A sequência proposta é direta: planejar pela necessidade, contratar pelo atributo, remunerar pelo benefício e alocar custos por causalidade.

O diagnóstico é reforçado por dois dados do mesmo estudo. As restrições aplicadas a fontes eólica e solar corresponderam, em 2025, a 20,7% do potencial de geração. E a indicação de BESS centralizado no planejamento passou de 800 MW no PDE 2034 para 6.631 MW no PDE 2035, sensível às premissas econômicas. Esses números não são uma meta de contratação, mas revelam por que flexibilidade e potência ganharam espaço no planejamento.

Um mercado em camadas

A primeira camada é o LRCAP. As minutas consultadas pela ANEEL previram sistemas autônomos de pelo menos 30 MW, quatro horas de duração, até dois despachos diários, recomposição completa em seis horas e contratos de 15 anos com suprimento a partir de agosto de 2028. A remuneração proposta é por disponibilidade de potência, em receita fixa, e não simplesmente pela arbitragem entre preços horários. Isso dá uma âncora potencial de receita, mas também torna mais exigente a obrigação de manter potência útil.

A segunda camada é a transmissão. A ANEEL colocou em consulta uma proposta para o Acre com BESS grid-forming de 100 MW/200 MWh, contrato de 18 anos e implantação em 36 meses. Ainda era uma proposta, não obra contratada nem vencedor. Seu significado, porém, é importante: a bateria deixa de ser vista apenas como reservatório e passa a ser equipamento de confiabilidade locacional, controle e suporte de rede. O ponto de conexão passa a valer tanto quanto a capacidade instalada.

A terceira camada está atrás do medidor. Consumidores comerciais e industriais podem usar armazenamento para reduzir demanda de ponta, elevar o autoconsumo solar, criar backup e administrar restrições de conexão. O PDE 2035 projetou entre 61,4 GW e 97,8 GW de micro e minigeração distribuída até 2035; no cenário de referência, seriam 78,1 GW e 9,5 milhões de consumidores. O estudo simulou viabilidade em algumas aplicações abaixo de R$ 2.000/kWh e potencial residencial acima de R$ 200 bilhões, mas sob premissas de preço, adesão e regulação. Não é uma previsão de vendas.

A quarta camada é a combinação de energia e serviços. Arbitragem, resposta da demanda, alívio de congestionamento, reserva, qualidade e serviços ancilares podem formar receitas empilhadas. Mas isso exigirá clareza sobre representação na CCEE, energia usada para carregar, perdas, encargos, medição, liquidação e autorização para combinar produtos. A consulta do MME sobre armazenamento e mercado livre propôs uma classe de armazenadores autônomos e regras de representação; enquanto consulta, não criou receita consolidada.

Uma agenda de mercado em camadas

A leitura setorial mais consistente defende a inserção transversal do armazenamento em geração, transmissão, distribuição e consumo, com neutralidade tecnológica e regulatória. Também chama atenção para garantias proporcionais, experiência pretérita, tratamento de RTE e perdas, liquidação, penalidades, conteúdo local e cronograma. A sugestão de garantias de proposta de 1% e de fiel cumprimento de 5% do investimento deve ser entendida como contribuição de mercado, não como regra vigente.

Essa distinção é mais que semântica. A transversalidade não autoriza declarar um segmento preferencial. O LRCAP pode ser a primeira âncora comercial, mas não substitui transmissão, C&I, residencial, solar-plus-storage ou recursos energéticos distribuídos. Da mesma forma, o debate sobre capacitação, O&M, segurança, rastreabilidade e fim de vida aparece em documentos públicos e boas práticas, mas não como metas numéricas para 2026–2030.

Fonte: Portal Solar

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