O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Quase 87% da eletricidade ofertada internamente provêm de fontes renováveis, índice muito superior à média mundial – que gira em torno de 14%. Entre as formas de geração de energia mais empregadas no país, a eólica vem crescendo exponencialmente, impulsionada por avanços tecnológicos que otimizam processos e garantem maior eficiência.
A força dos ventos é responsável por gerar cerca de 15% da eletricidade do Brasil. Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2025, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) com o Ministério de Minas e Energia (MME), a energia eólica consolidou-se como a segunda fonte mais importante da matriz elétrica brasileira, atrás apenas das grandes hidrelétricas, que concentram 51,2% da produção.
Atualmente, o País possui 36 GW de capacidade instalada (com 34,9 GW em operação comercial e 1,1 GW em teste), distribuídos em 1.161 parques eólicos e 12.169 aerogeradores (aquelas estruturas gigantes semelhantes a moinhos). Os dados são da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).
O Nordeste é o protagonista absoluto da produção nacional, concentrando mais de 90% da potência instalada. Estados como Bahia (11.786,30 MW) e Rio Grande do Norte (10.793,53 MW) lideram a geração por estarem mais próximos da Linha do Equador e, por isso, receberem os chamados ventos alísios de sudeste, caracterizados por alta velocidade média e constância. O fator de capacidade médio anual na região foi de cerca de 40% entre 2022 e 2025.
“A energia eólica é um caso de política industrial muito bem-sucedida no Brasil. Ao longo dos últimos anos, houve um crescimento muito forte e que, além de tudo, está apoiado em tecnologia nacional. Hoje, cerca de 80% dos parques eólicos construídos aqui contam com equipamentos brasileiros. Isso é fruto de incentivo”, afirma Francisco Silva, diretor regulatório da ABEEólica.
IA
A Inteligência Artificial (IA) já desempenha um papel fundamental e crescente no setor de energia eólica, sendo aplicada em diversas frentes. Segundo Alexandre Costa, vice-coordenador do Centro de Energias Renováveis da Universidade Federal de Pernambuco (CER-UFPE), técnicas de IA vêm sendo empregadas no setor há décadas. “Em várias circunstâncias, elas têm se mostrado complementares à modelagem físico-numérica”, diz o especialista
Técnicas de Inteligência Artificial são utilizadas, por exemplo, para o ajuste fino de calendários de manutenção preventiva e corretiva. Além disso, drones integrados com IA realizam inspeções autônomas nas pás dos aerogeradores (situadas a dezenas de metros de altura), identificando desgastes e rachaduras de forma preventiva, o que reduz o tempo de parada dos parques e evita acidentes de trabalho. Essas ferramentas atuam ainda na detecção e diagnóstico de falhas em tempo real durante a operação, além de estimarem a vida útil remanescente dos componentes dos aerogeradores.
Com o uso desse tipo de tecnologia avançada, é possível prever a potência de saída das usinas e a geração de curto prazo junto ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Os modelos de IA também oferecem projeções acuradas sobre a produção de energia de horas a semanas à frente, superando as limitações de ferramentas tradicionais. Isso é possível graças ao cruzamento de dados de vento dos anemômetros com previsões meteorológicas.
Em parques híbridos (que combinam eólica, solar e baterias), a IA auxilia na administração e no despacho de energia. Essa gestão inteligente garante o fornecimento de energia constante, o que é essencial para indústrias nascentes, como a de hidrogênio verde, e para a operação dos data centers. Essas instalações físicas centralizadas que abrigam servidores e equipamentos de rede, aliás, devem impulsionar fortemente o setor de energia eólica no Brasil nos próximos anos.
Data centers
O Brasil já lidera o mercado de data centers na América Latina, abrigando mais de 200 instalações. Com o avanço do uso da IA nos mais diferentes setores, a tendência é de expansão. Esses espaços necessitam de um suprimento de energia massivo e ininterrupto. Como a criação de novas hidrelétricas enfrenta restrições ambientais no país e as termelétricas são poluentes, restam as fontes eólica e solar como principais alternativas viáveis.
Apesar do potencial econômico desse crescimento, especialistas alertam para a necessidade de um debate nacional estruturado sobre a instalação de data centers no país. Entre diversos pontos críticos que precisam ser considerados, Alexandre Costa chama atenção para riscos ambientais, como “o excessivo consumo de água em sistemas em que a refrigeração se dá por circulação de água em circuito aberto” e a “produção de resíduos eletrônicos pela rápida obsolescência dos servidores”.
Para o futuro, a eólica offshore (geração em alto-mar) surge como vetor de expansão, com potencial técnico estimado em 700 GW em profundidades de até 50 metros. O marco legal foi estabelecido pela Lei nº 15.097/2025 e, em abril de 2026, uma resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) definiu novas diretrizes regulatórias, como o afastamento mínimo inicial de 12 milhas náuticas da costa para evitar conflitos com pesca e turismo. A expectativa é de que os primeiros parques comerciais devem operar a partir de 2031 ou 2032, com projetos em desenvolvimento no Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
A continuidade dos avanços no setor eólico, no entanto, depende da resolução de gargalos estruturais e conjunturais, que vão desde problemas na infraestrutura de transmissão até o chamado curtailment, que é a redução ou corte intencional na geração de energia de usinas, determinados pelo operador da rede elétrica por conta da sobreoferta do sistema.
“Entre 2023 e 2025, o Brasil cortou energia suficiente para abastecer os estados da Bahia e do Rio Grande do Norte por um ano inteiro. O grande problema disso é que os geradores de energia renovável não são ressarcidos por esses cortes. A gente precisa resolver essa com urgência, porque senão corre o risco de desmobilizar toda uma indústria que já foi criada no país e ainda tem tanto potencial”, expõe Francisco Silva.
Fonte: Folha de Pernambuco