O primeiro Leilão de Reserva de Capacidade com Armazenamento (LRCAP) marca um avanço relevante na forma como o sistema elétrico brasileiro passa a incorporar as baterias ao planejamento. Ainda que as diretrizes e o edital não tenham sido publicados, o mercado já se mobiliza para compreender como esse novo recurso será incorporado à operação do sistema.
Foi nesse contexto que a Greener promoveu um webinar com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), reunindo agentes, investidores, desenvolvedores e financiadores interessados em reduzir incertezas e avançar na compreensão do modelo em construção. O debate deixou claro que, apesar dos avanços, três grandes temas seguem no centro das atenções: eficiência, empilhamento de receitas e sinal locacional.
Um leilão com função sistêmica, além da tecnológica
Um ponto merece ser destacado desde o início: o LRCAP não nasce como um instrumento de incentivo tecnológico, mas como uma resposta direta as necessidades do sistema elétrico. O armazenamento é tratado como recurso de capacidade, voltado à confiabilidade, à flexibilidade operativa e ao atendimento da ponta.
Essa escolha é acertada. Ela sinaliza maturidade no planejamento e foco na função que o sistema realmente precisa que esses ativos desempenhem. Ao mesmo tempo, ela eleva o nível de exigência do desenho regulatório: transformar essa função sistêmica em projetos viáveis requer regras claras, previsibilidade e correta alocação de riscos.
Round-trip efficiency: quando a eficiência deixa de ser detalhe técnico
Entre as dúvidas mais recorrentes do mercado, a round-trip efficiency se destacou por seu impacto direto na competitividade e na bancabilidade dos projetos. Mais do que um indicador técnico, a eficiência do ciclo completo de carga e descarga influencia CAPEX, OPEX, estratégia de reposição de ativos e percepção de risco por parte de investidores e financiadores.
Durante o webinar, a EPE reconheceu que a consulta pública revelou incertezas relevantes, sobretudo sobre onde essa eficiência seria medida e quem seria responsável por garanti-la ao longo do contrato. O esclarecimento trouxe um avanço importante: a proposta é que a eficiência mínima seja aferida no Ponto de Medição Individual (PMI), uma fronteira já conhecida em projetos solares e eólicos.
Ao adotar o PMI, o regulador elimina perdas que não estão sob controle do empreendedor, como aquelas associadas à rede ou a ativos compartilhados após esse ponto. A responsabilidade passa a recair sobre aquilo que o agente de fato controla: dimensionamento, manutenção e estratégia de gestão do ativo. A eficiência mínima, hoje sinalizada em 85%, deixa de ser apenas um requisito técnico e passa a ser um elemento estruturante da competitividade ao longo do contrato.
Outro ponto relevante é o horizonte temporal dessa exigência. A expectativa é que a eficiência seja mantida ao longo de todo o contrato, inicialmente previsto para 10 anos. Aspectos como periodicidade da medição e penalidades ainda deverão ser detalhados no edital, com participação da ANEEL na fiscalização futura. Para o mercado, a mensagem é clara: eficiência não será avaliada apenas na entrada, mas monitorada ao longo do tempo.
Sinal locacional: incentivo econômico com racional sistêmico
Além da eficiência, o sinal locacional apareceu como um dos principais instrumentos de direcionamento dos investimentos. A EPE explicou que a chamada bonificação, estimada em torno de 10% de ganho competitivo sobre o lance, foi concebida como um incentivo econômico equivalente a um desconto no uso da rede.
Fonte: Portal Solar