A China está ampliando a integração entre energia renovável e infraestrutura digital para sustentar o rápido crescimento dos centros de dados e da capacidade nacional de computação. Na Região Autônoma Hui de Ningxia, no noroeste do país, grandes projetos solares e eólicos estão sendo desenvolvidos para fornecer eletricidade limpa aos data centers, em uma estratégia que combina expansão tecnológica, redução de custos e diminuição das emissões de carbono.
Segundo a agência Xinhua, uma usina solar de 500 megawatts (MW) e um futuro complexo eólico de 1,5 gigawatt (GW) fazem parte da estrutura energética destinada a atender à crescente demanda de computação na região. A complementaridade entre geração solar e eólica ajuda a ampliar a disponibilidade de eletricidade renovável ao longo do dia e reforça a segurança do fornecimento para instalações que precisam operar continuamente.
A iniciativa mostra como a expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos serviços digitais está sendo conectada à transformação da matriz energética chinesa. O objetivo é evitar que o aumento da capacidade computacional resulte em crescimento proporcional do consumo de combustíveis fósseis.
Mais de 80% da energia de data center vem de renováveis
Zhongwei, cidade de Ningxia que se transformou em um dos principais polos chineses de computação, está no centro dessa estratégia.
Mais de 80% da eletricidade consumida por um dos centros de dados instalados na cidade já é proveniente de fontes renováveis, segundo as informações divulgadas pela Xinhua.
A disponibilidade de energia limpa representa uma vantagem importante para o setor porque os data centers estão entre as instalações de maior intensidade energética da economia digital.
A eletricidade pode representar entre 60% e 70% dos custos operacionais dessas estruturas. Isso significa que o acesso a fontes abundantes, estáveis e competitivas de energia tornou-se um fator decisivo para determinar onde serão instalados grandes projetos de infraestrutura digital.
Com o crescimento da inteligência artificial, essa equação se torna ainda mais importante. Sistemas de IA exigem grandes volumes de processamento, elevando a demanda por servidores, chips e instalações capazes de operar continuamente.
A disponibilidade de energia passa, dessa forma, a ser um componente fundamental da disputa global por capacidade computacional.
Zhongwei se consolida como polo tecnológico
A transformação de Zhongwei ilustra a dimensão do movimento.
A cidade abriga atualmente dez parques de centros de dados e conta com a presença de seis das maiores operadoras de internet da China. A infraestrutura instalada atende grandes companhias tecnológicas, incluindo Alibaba, Baidu e Tencent.
Zhongwei ocupa a quinta posição no índice de poder de computação da China e alcançou capacidade de 283.100 petaflops, oferecendo suporte a mais de 4.900 empresas.
A expansão mostra como regiões anteriormente distantes dos principais polos econômicos do litoral chinês estão adquirindo uma nova função dentro da economia digital.
Ningxia possui características particularmente favoráveis. O clima seco e as temperaturas relativamente amenas permitem maior utilização de sistemas naturais de resfriamento, reduzindo a quantidade de eletricidade necessária para manter servidores e equipamentos dentro das temperaturas adequadas de funcionamento.
Sua localização também favorece a integração com a infraestrutura nacional de telecomunicações e computação.
Consumo de energia dos data centers dispara
A busca por soluções energéticas mais eficientes ocorre diante de uma tendência mundial de rápido crescimento do consumo elétrico dos centros de dados.
A previsão é que essas instalações consumam globalmente cerca de 945 terawatts-hora (TWh) de eletricidade até 2030, evidenciando a dimensão do desafio energético associado à expansão da economia digital e da inteligência artificial.
Na China, o crescimento já é expressivo.
O consumo de eletricidade dos centros de dados praticamente dobrou em cinco anos, passando de 82,4 TWh em 2019 para 166 TWh em 2024.
Esse avanço cria um desafio estratégico. Por um lado, o país precisa ampliar rapidamente sua infraestrutura de computação para sustentar inteligência artificial, serviços digitais, indústria avançada e novas aplicações tecnológicas. Por outro, precisa impedir que essa expansão comprometa seus objetivos de transição energética.
A resposta chinesa passa pela aproximação física e operacional entre centros de dados e regiões com grande disponibilidade de energia renovável.
“Dados do leste, computação no oeste”
Uma das principais iniciativas para reorganizar essa infraestrutura é o projeto conhecido como “Dados do leste, computação no oeste”.
A estratégia busca transferir parte das cargas computacionais geradas nas regiões mais desenvolvidas e populosas do leste chinês para áreas do centro e oeste do país.
Essas regiões dispõem de espaço, condições climáticas favoráveis e, sobretudo, grandes reservas de energia renovável.
Ningxia tornou-se um dos pontos estratégicos dessa arquitetura.
Na prática, a China procura fazer com a capacidade computacional algo semelhante ao que realiza com grandes redes de energia e infraestrutura: distribuir recursos de acordo com as vantagens de cada região e conectá-los por uma rede nacional.
Grandes cidades e polos industriais do leste concentram usuários, empresas e demanda por processamento. Regiões do oeste oferecem energia renovável abundante e condições mais favoráveis à operação de grandes centros de dados.
A conexão entre essas duas estruturas permite utilizar a capacidade computacional a milhares de quilômetros do local onde os dados e serviços são demandados.
Solar e eólica sustentam infraestrutura digital
Os projetos em Ningxia mostram também como diferentes fontes renováveis podem ser combinadas para atender a instalações que funcionam 24 horas por dia.
A usina solar de 500 MW produz eletricidade principalmente durante o período de maior incidência de luz. O futuro complexo eólico, com capacidade prevista de 1,5 GW, acrescentará outra fonte de geração com características distintas.
Essa complementaridade contribui para aumentar a disponibilidade de energia renovável para os centros de dados.
A integração deverá avançar para sistemas ainda mais sofisticados, nos quais fornecimento de eletricidade e demanda computacional poderão ser coordenados dinamicamente.
Em períodos de maior disponibilidade de energia renovável, determinadas cargas de processamento poderão ser intensificadas ou transferidas para regiões onde exista maior oferta de eletricidade limpa.
Essa arquitetura transforma a própria capacidade computacional em elemento de uma infraestrutura nacional integrada.
Energia se torna peça central da corrida pela inteligência artificial
A estratégia chinesa evidencia uma mudança importante na economia tecnológica global: a corrida pela inteligência artificial não depende apenas de algoritmos e semicondutores.
Ela depende também de eletricidade.
Quanto maior a capacidade de processamento instalada, maior será a necessidade de geração, transmissão e distribuição de energia. Países capazes de combinar grande capacidade computacional com eletricidade abundante e competitiva passam a dispor de uma vantagem estratégica.
Nesse sentido, a expansão das fontes solar e eólica chinesas ganha uma dimensão adicional. Além de substituir progressivamente fontes mais intensivas em carbono, as renováveis tornam-se infraestrutura para sustentar a economia digital.
Para a China, a integração entre energia limpa, data centers e redes nacionais de computação permite conectar duas de suas principais frentes de investimento tecnológico: a transição energética e a inteligência artificial.
Com polos como Zhongwei, grandes projetos solares e eólicos e a estratégia de deslocamento da computação para o oeste, o país avança na construção de uma infraestrutura em que eletricidade renovável e capacidade digital são planejadas de maneira cada vez mais integrada.
Fonte: Brasil 247