O avanço das fontes renováveis no Brasil e no mundo está diretamente ligado à expansão da infraestrutura de transmissão. Sem linhas capazes de conectar polos de geração aos centros de consumo, a transição energética perde velocidade.
Em 2025, a geração de energia renovável representou 76% dos 7,6 GW adicionados ao sistema elétrico brasileiro, com as fontes solar e eólica, predominantemente localizadas no Nordeste, contribuindo com 42,9%.
Nesse avanço, a infraestrutura de transmissão caminha lado a lado: um total de 5.581 km de novas linhas foram implantadas em 2025, com reforço de 11.631 MVA nas subestações. O destaque foi o Linhão Manaus-Boa Vista, que integrou Roraima ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
Essa última obra tem duas características importantes: fechou a integração de todos os estados brasileiros ao SIN, inclusive viabilizando a exportação de energia para a Venezuela, e vai gerar uma economia de R$ 500 milhões por ano na Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), a qual subsidia os sistemas isolados de energia movidos a geradores.Como apontou o artigo da especialista em transmissão Amanda Fernandes, da PSR, não há transição energética sem a expansão dessa infraestrutura. Ela, inclusive, lista cinco soluções de Grid Enhancing Technologies (GETs), ou seja, tecnologias de melhoria da rede, que podem aprimorar a infraestrutura existente, combinando a ativação de hardware e software.
O mais recente Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica (POTEE), documento do Ministério de Minas e Energia (MME), que aponta as obras de expansão e de reforço na rede, também destaca o papel do Nordeste e Norte na transição energética.
De acordo com o site Canal Energia, entre as principais indicações inéditas do documento atual estão novos empreendimentos estruturantes nas duas regiões, “incluindo a implantação de linhas de transmissão em 500 kV e ampliações de subestações estratégicas para o escoamento de energia e conexão de novas cargas.”
Projetos eólicos impulsionam expansão da transmissão
O papel estratégico da transmissão na movimentação das renováveis também é reforçado pelo relatório combinado sobre o Programa de Expansão da Transmissão (PET) e sobre o Plano de Expansão de Longo Prazo (PELP), ambos da Empresa de Planejamento Energético (EPE).
De acordo com o documento, o planejamento atual está embasado em estudos técnicos focados fortemente na integração de energias renováveis, com amplo destaque para a fonte eólica.Entre as referências do PET/PELP, lançado no segundo semestre de 2025, diversas análises nortearam esses investimentos focados no potencial eólico, entre eles os estudos de escoamento do potencial da área leste da Região Nordeste e, ainda mais especificamente, do potencial dos estados do Maranhão, Piauí e Ceará. Outra avaliação citada é o estudo para escoamento do potencial eólico da região central da Bahia.
O PET/PELP também lista como base para os investimentos o estudo prospectivo para avaliação da integração do potencial eólico do Rio Grande do Sul.
Importante reforçar que 88,2% da matriz elétrica brasileira é de fontes renováveis e depende intrinsecamente da transmissão. Os novos ciclos de investimento estão focados nas fontes eólica e solar, que demandam aportes significativos para escoar o que é gerado no Nordeste e Norte de Minas Gerais. Os ciclos anteriores de expansão para se atingir o nível atual da matriz focaram no potencial hidrelétrico do Norte.
Nos dois casos, os corredores de transmissão cumprem o papel de funcionar como um duto de transporte da energia renovável das áreas geradoras para as consumidoras, principalmente no Sudeste.
Modelo americano aposta na transmissão
O planejamento brasileiro é apenas um exemplo de como a transmissão pode impulsionar uma economia de baixo carbono. Nos Estados Unidos, alguns estudos confirmam essa perspectiva.
É o caso do Western Interconnection Baseline Study, organizado pela Pacific Northwest National Laboratory (PNNL), um laboratório do Departamento de Energia.O relatório foca na modelagem técnica e nos benefícios diretos da expansão da rede elétrica, especificamente no oeste dos Estados Unidos. O estudo simulou os efeitos de concluir 12 projetos de transmissão que já estão em estágios avançados de desenvolvimento, o que adicionaria mais de 3 mil milhas (aproximadamente 4,8 mil km) de novas linhas conectando áreas como Wyoming, Califórnia, Nevada e Arizona.
Essa nova capacidade de transmissão permitiria adicionar 68 GW de nova energia renovável até 2030, compostos por 35 GW de energia eólica, 31 GW de energia solar e 12 GW de armazenamento.
Os resultados demonstram que essa expansão deslocaria 15% da energia gerada por combustíveis fósseis, reduzindo as emissões de dióxido de carbono em 73% em relação aos níveis de 2005. E mais: derrubaria os custos de geração de energia em 32%.
O documento também relata simulações de cenários de emergência, como a perda de uma usina nuclear ou de uma grande linha de transmissão, e conclui que uma rede com alta proporção de energias renováveis, apoiada por armazenamento e novas linhas, consegue redirecionar a energia rapidamente e se manter estável, evitando apagões.
Outro relatório, elaborado no final de 2022 pela Grid Strategies, avaliou os impactos de uma legislação federal de licenciamento e infraestrutura de energia, apontando que a falta de transmissão é a maior barreira para a redução de emissões nos Estados Unidos, deixando mais de 1.000 GW de projetos renováveis e de armazenamento presos em filas de interconexão.
O documento analisa como a legislação pode ajudar a destravar projetos ao alterar as regras, inclusive de licenciamento ambiental, por, no máximo, dois anos.
Os autores calculam que a construção de apenas 22 linhas de transmissão que já estão “prontas para começar” reduziria as emissões de carbono nos EUA em 131 milhões de toneladas curtas por ano.
A Austrália, que tem similaridades com o Brasil, também aposta na transmissão como instrumento para destravar as energias renováveis.
De acordo com especialistas da empresa de consultoria Beca, uma das maiores da Ásia-Pacífico, construir mais linhas de transmissão é o que permite, na prática, que a energia limpa alcance as cidades, reduzindo a dependência do carvão e cortando a poluição no caso australiano.
Eles estimam que apenas a Austrália precisará de 10 mil km de novas linhas até 2050. Além dos cabos físicos, a rede existente não está equipada para lidar com as variações de sol e vento, o que leva à necessidade de modernização, incluindo os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), para manter o sistema estável.
Curtailment elétrico cai para 5%
A associação direta entre curtailment e infraestrutura de transmissão, no caso brasileiro, deve perder força. Segundo reportagem da Brasil Energia, o ano de 2030 será um divisor de águas, com 95% dos cortes projetados para a próxima década acontecendo por excesso de oferta em relação à demanda do sistema.
É o chamado curtailment energético, diferente do elétrico, que ocorre por falta de infraestrutura de transmissão.
Os dados são do estudo da Aurora Energy Research e ressaltam o papel da expansão da infraestrutura atual. O documento destaca a entrada de novas linhas de transmissão, inclusive os grandes corredores que interligam a geração eólica do Nordeste à carga do Sudeste.
Fora do Brasil, a mesma dinâmica se repete. O caso do Texas mostra como investimentos em transmissão reduzem gargalos, diminuem curtailment e ampliam a capacidade de absorção de energia renovável. Lá, o programa Competitive Renewable Energy Zones (CREZ) construiu 3.600 milhas (cerca de 5,8 mil km) de novas linhas de transmissão para conectar as áreas de fortes ventos aos consumidores.
Esse investimento eliminou os gargalos regionais, permitindo a conexão de mais de 14.000 MW de capacidade eólica, e posteriormente um boom de 6.000 MW de energia solar, garantindo que essa energia fosse absorvida pela rede em vez de ser cortada. Na Austrália, a solução envolve a associação de novas linhas com BESS, mas também modelos inovadores.
É o caso do estado de Nova Gales do Sul, que está investindo US$ 32 bilhões apenas nas chamadas zonas de energia renovável (REZs). Além de baterias, essas áreas utilizam tecnologias avançadas de redes inteligentes para ajustar dinamicamente os fluxos de energia, prevenindo sobrecargas no sistema que obrigariam o corte da geração.
De acordo com a consultoria Beca, ao planejar a geração em conjunto com uma infraestrutura de transmissão dedicada, as REZs garantem que a energia gerada em locais remotos tenha um caminho direto para chegar aos centros urbanos e residências, eliminando gargalos de transporte.
Em diferentes mercados, a conclusão converge para a mesma direção: a expansão das renováveis depende menos da capacidade de gerar energia e mais da capacidade de transportá-la. Na prática, a velocidade da transição energética será definida pela velocidade de expansão das redes de transmissão.
Fonte: Além da Energia