Na literatura e no cinema, toda boa história precisa de uma força de contraste, não necessariamente um vilão, mas um elemento que desafia o protagonista e torna a narrativa mais complexa. Em muitos casos, é esse “antagonista” que dá profundidade à trama. No Nordeste, esse papel pode ser associado à Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), na faixa norte da região, onde a presença de nebulosidade e chuvas intensas reduz a estabilidade da irradiância solar e aumenta a intermitência na geração fotovoltaica.
O crescimento da energia solar transformou o Nordeste em um dos principais polos da transição energética no Brasil. A região apresenta irradiância solar alta, com valores que podem superar os 6,5 kWh/m²/dia no semiárido durante os meses de primavera, além de uma expansão acelerada da capacidade instalada, um cenário em que a atuação desse “contraponto climático” ganha ainda mais relevância.
No primeiro trimestre de 2026, entre janeiro e março, a ZCIT esteve mais fraca ou posicionada predominantemente a norte de sua localização habitual, o que favoreceu níveis de irradiância entre médios e acima da média no norte do Nordeste.
Já em abril, especialmente na segunda quinzena, o aquecimento do Atlântico Sul próximo à costa nordestina favoreceu seu deslocamento para o sul, aumentando a nebulosidade e reduzindo a estabilidade da geração, principalmente entre o Rio Grande do Norte e o norte do Maranhão.
O que é a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT)?
A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) é um dos principais sistemas meteorológicos do planeta. Ela se forma a partir do encontro dos ventos alísios dos hemisférios Norte e Sul na faixa equatorial. Essa convergência favorece a ascensão de ar quente e úmido, especialmente quando a superfície dos oceanos está mais aquecida. Como resultado, há intensa formação de nuvens, com ocorrência de chuvas persistentes, muitas vezes volumosas, e tempestades frequentes.No Brasil, a ZCIT exerce influência direta sobre a disponibilidade do recurso fotovoltaico na faixa norte do Nordeste, que inclui estados como Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Sua atuação é mais intensa entre fevereiro e maio, período em que há maior presença de nebulosidade e chuvas, com acumulados que podem variar entre 250 e 400 mm mensais em áreas do litoral norte nordestino.
Esse comportamento resulta em longos períodos de intermitência na irradiância solar, afetando diretamente a estabilidade da geração fotovoltaica. Já na segunda metade do ano, especialmente entre setembro e novembro, o afastamento da ZCIT em direção ao Hemisfério Norte favorece maior frequência de dias com céu claro e condições mais estáveis de geração na região.
Como a convergência de calor e umidade na ZCIT ocorre de forma contínua, a formação de nuvens não segue um padrão horário definido. Isso faz com que a variabilidade intradiária seja um elemento central na análise da geração solar. Em muitos casos, predominam nuvens de grande desenvolvimento vertical, como as do tipo Cumulonimbus, capazes de provocar reduções abruptas e localizadas da irradiância.
Diante desse cenário, o monitoramento meteorológico contínuo se torna essencial para aumentar a previsibilidade da geração e dar suporte à operação mais eficiente do sistema elétrico. Acompanhar a evolução de sistemas como a ZCIT permite antecipar oscilações de irradiância, melhorar a tomada de decisão e reduzir a exposição do sistema à variabilidade da atmosfera.
Por: Paulo Lombardi, meteorologista da Tempo OK
Fonte: Portal Solar